domingo, 28 de novembro de 2010

Peter Singer e eu concordamos quanto a uma coisa: a não violência

Postado por Gary L. Francione em seu blog em 27 de novembro de 2010

Caros(as) colegas:
Recentemente, Peter Singer postou o seguinte Tweet em resposta ao recebimento, por um vivisseccionista da UCLA, de lâminas de barbear alegadamente infectadas com sangue contaminado:
Pô…como isso vai ajudar os animais? Tudo que isso faz é dar a pior imagem possível ao movimento pelos animais. http://tinyurl.com/27xmlkr
Eu concordo com Singer que violência como essa dá uma imagem negativa do movimento pelos animais, e acho que o problema é mais complicado do que a imagem pública somente. Pondo um pouco de lado qualquer problema moral geral com a violência, a palhaçada da UCLA simplesmente não faz sentido. Sem dúvida, o vivisseccionista da UCLA está explorando injustificavelmente os animais. Mas qualquer pessoa que usa animais também está, inclusive aquela que consome produtos de origem animal. Não há realmente nenhum modo, com base em princípio, de fazer uma distinção entre quem se ocupa da vivissecção e quem consome qualquer tipo de carne, laticínio ou outros produtos animais, incluindo os produtos “felizes”. As pessoas que promovem a violência estão dispostas a considerar seus avós, que assaram um peru para o Dia de Ação de Graças, como um alvo apropriado de violência? Elas estão dispostas a tratar seus familiares ou amigos, que tomam sorvete ou leite ou consomem qualquer produto animal, como a “escória abusadora de animais” que é o alvo legítimo da violência? Não, é claro que não.
O único meio de resolver o problema da exploração animal será desviando o paradigma da propriedade e direcionando-o à personalidade, e isso não acontecerá — nós nunca acharemos nosso compasso moral aqui — enquanto consumirmos produtos animais. Isso certamente nunca acontecerá como resultado de violência. Se o pensamento social e a demanda pública por uso de animais permanecerem os mesmos, nada mudará, nunca. Se você fecha dez matadouros hoje e a demanda permanece a mesma, mais dez matadouros serão abertos amanhã, ou dez já existentes expandirão sua capacidade de produção. Para mais sobre este tópico, veja 1, 2, 3, 4, 5 e ouça meu Comentário sobre o assunto. Também discuto este tópico em meu novo livro, The Animal Rights Debate: Abolition or Regulation?, publicado em novembro de 2010 pela Columbia University Press.
Então, embora Singer e eu discordemos quanto a quase todas as outras questões dentro da ética animal, estou contente por concordarmos quanto à importante questão da violência na defesa animal. Espero sinceramente que Singer não seja objeto de ameaças e ataques difamatórios como aqueles que foram dirigidos a mim por eu ter condenado franca e abertamente a violência.
O movimento pelos direitos animais faz sentido somente como um movimento de paz e de não violência. Disse Gandhi:
Precisamos nos tornar a mudança que queremos ver no mundo.
Se quisermos ver um mundo onde não haja violência contra os mais vulneráveis, devemos, nós próprios, nos tornar não violentos e apresentar nossos pontos de vista de um modo não violento. A não violência começa com nosso próprio veganismo e nosso uso de modos criativos e não violentos de educar os outros sobre o veganismo.
Se você não for vegano(a), torne-se vegano(a). É fácil; é melhor para a sua saúde e o planeta. Mas o mais importante é que é a coisa moralmente certa a fazer. Veganismo é não violência em ação.
Se você for vegano(a), então passe tanto tempo quanto puder engajado(a) em educação vegana criativa e não violenta.
Gary L. Francione
© 2010 Gary L. Francione
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Tradução: Regina Rheda

domingo, 14 de novembro de 2010

Pedofilia “humanitária” e “compassiva”

Postado por Gary L. Francione em seu blog em 11 de novembro de 2010

Caros(as) colegas:
Há muitos anos que venho argumentando que se a exploração animal não pode ser justificada moralmente (e eu não acho que possa), então devemos, em termos individuais, cessar nossa participação direta na exploração animal tornando-nos veganos, e devemos, em termos sociais, promover a abolição, e não a regulamentação, da exploração animal. Argumentei, por exemplo, que nós, tendo determinado que a pedofilia é errada moralmente, não deveríamos, nem mesmo em face da presença generalizada do abuso sexual infantil em nossa sociedade, promover a pedofilia “humanitária”. Semelhantemente, não deveríamos promover a exploração animal “humanitária”. Se a exploração animal é moralmente injustificável, devemos dizer isso, e devemos dizer isso claramente. (Também argumentei que, em termos práticos, a reforma do bem-estar animal não funciona e, na realidade, é contraproducente).
Portanto, foi com considerável interesse que li sobre a reação do público à propaganda que a Amazon.com fez de um e-book, The Pedophile’s Guide to Love and Pleasure: A Child-Lover’s Code of Conduct [Guia do pedófilo para o amor e o prazer: um código de conduta do amante das crianças], que está descrito por seu autor como uma “tentativa de tornar as situações de pedofilia mais seguras para as crianças que se encontram nelas envolvidas, estabelecendo certas regras para esses adultos seguirem”. A CNN noticia:
Um e-book à venda na Amazon.com, que parece defender a pedofilia, provocou centenas de raivosos comentários de usuários, além de ameaças de boicote ao varejista on line caso ele não remova o titulo.
Cerca de 1.700 usuários que tinham comentado o título até as 9:40 da noite (no fuso ET) deploraram sua publicação e prometeram boicotar a Amazon até que ela o remova do site; o livro foi publicado pelo próprio autor. Pelo menos duas páginas foram criadas no Facebook, dedicadas a boicotar a Amazon por causa do livro.
A Amazon.com aparentemente parou de vender o livro, em consequência da indignação do público.
A reação a esse livro prova meu ponto: muito embora todos nós saibamos que a pedofilia corre solta na sociedade, e muito embora a promoção da pedofilia “humanitária” possa levar à redução do sofrimento das crianças que são vitimadas desse modo, ninguém que considere a pedofilia moralmente errada acha que deveríamos promover uma pedofilia “humanitária” ou “compassiva”.
Semelhantemente, aqueles que acreditam que a exploração animal é moralmente errada não deveriam estar fazendo campanha pela exploração “feliz” ou “compassiva”, nem promovendo rótulos ou selos de certificação de carne “feliz”. A mensagem deveria ser clara: não podemos justificar o uso de animais, por mais “humanitário” que seja o modo de usá-los. A realidade, evidentemente, é que mesmo o mais “humanitário” dos usos de animais ainda envolve o que seria considerado tortura se houvesse humanos envolvidos. Mas nenhum uso de animais, por mais “humanitário” ou “compassivo” que seja, pode ser justificado, assim como nenhuma pedofilia, por mais “humanitária” ou “compassiva” que seja, pode ser justificada.
Enquanto os defensores dos animais não reagirem contra a promoção da exploração animal “feliz” com tanta indignação quanto todos nós reagimos contra a promoção da pedofilia “feliz”, não haverá um movimento real pelos direitos animais.
Se você não for vegano(a), torne-se vegano(a). É muito fácil, melhor para a sua saúde e o planeta. E o mais importante é que é a coisa moralmente certa e justa a fazer.
Se você for vegano(a), então eduque os outros de um modo criativo e não violento.
Gary L. Francione
© 2010 Gary L. Francione
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Tradução: Regina Rheda

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Comentário nº 21: O livro The Animal Rights Debate, o fórum de discussão Abordagem Abolicionista e uma resposta a Nicolette Hahn Niman

Postado por Gary L. Francione em seu blog/podcast em 10 de novembro de 2010

Caros(as) colegas:
Neste Comentário, discuto três questões.
Primeiro, falo sobre meu novo livro, The Animal Rights Debate: Abolition or Regulation?, escrito em coautoria com o professor Robert Garner e publicado pela Columbia University Press.
Esse livro foca no debate em curso na comunidade da defesa animal: devemos buscar a reforma do bem-estar como um meio para o fim de alcançar os direitos animais? Eu argumento contra a reforma do bem-estar; Garner argumenta a favor.
Segundo, há duas semanas, em 26 de outubro de 2010, lançamos o fórum Abordagem Abolicionista, um espaço onde pessoas interessadas podem discutir as questões teóricas concernentes à abolição e ao veganismo, e ideias práticas para a educação vegana criativa e não violenta, assim como trocar informações sobre nutrição, comida vegana, criar crianças veganas, etc.
Até agora temos mais de 200 membros e as discussões estão ótimas. Há apenas duas regras: discurso respeitoso e civilizado, e não promover a violência.
Se você estiver interessado em aprender mais sobre a filosofia vegana e a abordagem abolicionista dos direitos animais, considere juntar-se ao Fórum.
Terceiro, apresento uma resposta a Nicolette Hahn Niman, do Niman Ranch, que vende carne “feliz” que, segundo o website, provém “de animais criados de modo humanitário em ranchos e fazendas familiares sustentáveis nos Estados Unidos”.
Em um artigo recente publicado em The Atlantic, Dogs Aren’t Dinner: The Flaws in an Argument for Veganism [Cachorros não são jantar: as falhas de um argumento pró veganismo], Ms. Niman nega que sofremos de esquizofrenia moral quando tratamos alguns animais como membros de nossas famílias mas enfiamos garfos em outros. A análise dela, em poucas palavras, é que, como questão cultural, com os cachorros nós temos uma relação diferente da relação que temos com os porcos.
É precisamente esse o problema: como questão cultural, tratamos alguns não humanos sencientes como coisas e outros como pessoas. Mas normas culturais não podem servir como justificativa para normas culturais! Se pudessem, então o racismo, o sexismo, e todos os tipos de discriminação e de violação dos direitos humanos seriam justificados.
Espero que você aprecie o Comentário.
Se você não for vegano, por que não é vegano? Não é necessário, de modo algum, para os humanos, explorar os não humanos. Então por que fazer isso? Tornar-se vegano é fácil; é melhor para a sua saúde; e, mais importante ainda, é o mínimo que você pode fazer para considerar os animais como seres com valor moral.
Se você for vegano, então eduque os outros de um modo criativo e não violento.
Gary L. Francione
© 2010 Gary L. Francione
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Tradução: Regina Rheda

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O fórum de discussão Abordagem Abolicionista já está aberto!

Postado por Gary L. Francione em seu blog em 26 de outubro de 2010

Caros(as) colegas:
Recebi inúmeros pedidos (mais de 200 desde o lançamento do site) para abrir um fórum anexado ao site, onde as pessoas possam discutir vários aspectos da abordagem abolicionista dos direitos animais. Então, com a ajuda de Randy W. Sandberg, que desenhou e mantém este site, Adam Kochanowicz e outros, estamos lançando o Fórum Abordagem Abolicionista.
O Fórum será administrado/moderado por uma equipe de voluntários informados sobre assunto, incluindo, além de Randy e Adam, Trisha Roberts, Dan Cudahy, Mylène Ouellet, Elizabeth Collins, Angel Flinn, Paola Aldana, Timothy E. Putnam, Vera Cristofani e outros que se encontram entre os mais talentosos integrantes da geração de defensores dos direitos animais que está emergindo. Todos estão familiarizados com a teoria abolicionista e contam com minha total confiança. Os moderadores irão moderar: não tenho intenção de fazer o papel de juiz.
Quero enfatizar que o Fórum deverá ser um espaço para discussão respeitosa e civilizada. Tudo bem as pessoas discordarem e debaterem com rigor. De fato, esse é um aspecto muito importante do Fórum; o objetivo é que as pessoas desenvolvam uma melhor compreensão sobre a abolição e a filosofia vegana. Então, debate rigoroso é bom; discurso abusivo ou malcriado, não.
Além disso, como a abordagem abolicionista que desenvolvi  é contra a violência, eu pediria que ninguém no Fórum promova a violência. Se as pessoas quiserem discutir a questão da violência, eu não vejo problema, contanto que a discussão seja civilizada e respeitosa. Mas o Fórum não será usado para promover a violência.
Embora todos os moderadores sejam informados quanto à abordagem abolicionista, eles têm seus próprios pontos de vista, que talvez não estejam de acordo com os meus ou os de outros moderadores, e portanto as posições expressas por um moderador não deverão ser atribuídas a nenhum outro moderador nem a mim.
Para juntar-se ao Fórum, você precisa criar uma conta clicando o botão “Apply for Membership” aqui. Uma vez que a conta seja aprovada, pedimos para você postar uma introdução bem pensada sobre si mesmo, e depois disso você terá acesso ao Fórum inteiro.
Espero que você use o Fórum para aprender sobre a abolição e a filosofia vegana, esclareça as dúvidas que tiver, compartilhe seus insights e ensine a outras pessoas e, como uma questão geral, conecte-se com outros interessados em trocar o paradigma, mudando-o dos animais como propriedade em direção aos animais como pessoas não humanas.
Se você não for vegano(a), torne-se vegano(a). É muito fácil, melhor para a sua saúde e o planeta. E o mais importante de tudo é que é a coisa moralmente certa e justa a fazer.
Se você for vegano(a), então eduque os outros de um modo criativo e não violento.
Gary L. Francione
© 2010 Gary L. Francione
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Tradução: Regina Rheda

sábado, 30 de outubro de 2010

Comentário nº 20: promoção criativa do veganismo não violento em um ambiente desafiador

Postado por Gary L. Francione em seu blog/podcast em 25 de outubro de 2010

Caros(as) colegas:
Neste Comentário, tenho uma longa discussão com dois ativistas veganos abolicionistas, Jeff Perz e Renata Peters. Eles moram em Alice Springs, uma cidade pequena e remota da Austrália central dominada pela indústria do gado, e exatamente o tipo de lugar onde você pensaria que é impossível gerar entusiasmo em relação ao veganismo.
Mas Renata e Jeff provam que é possível haver um movimento vegano em qualquer lugar — se você quiser!
Jeff é canadense; Renata, australiana. Juntos, esses dois veganos, que também são adeptos da comunicação não violenta, conversam comigo sobre como se tornaram veganos, por que são abolicionistas e o que estão fazendo em Alice Springs para educar as pessoas sobre o veganismo.
Renata e Jeff vão lhes mostrar que vocês não precisam de uma organização grande nem de um orçamento alto para promover o veganismo de modo eficaz. Tudo de que vocês precisam é vontade de trabalhar muito e de pensar criativamente sobre a melhor forma de educar a comunidade onde vivem. Doces veganos ajudam!
Achei minha discussão com Jeff e Renata inspiradora, e sei que vocês também vão achar.
No início do Comentário, discuti brevemente uma nova campanha do grupo bem-estarista britânico Animal Aid, que está:
pedindo que se instale circuito fechado de TV (CFTV) em todos os matadouros do Reino Unido, e que o material gravado seja disponibilizado a terceiros fora do matadouro. Também queremos um treinamento independente melhor, retreinamento e avaliação regulares, execução rigorosa das leis, e o fim do emprego em matadouros para aqueles com condenações pendentes por violência ou crueldade contra animais.
Um matadouro, cujo contrato com uma grande cadeia britânica de supermercados foi suspenso depois que o Animal Aid alegou que ele cometia crueldade contra animais, teve seu contrato restabelecido após “melhorias no abatedouro, incluindo a introdução do CFTV” de acordo com as exigências do Animal Aid.
Andrew Tyler, do Animal Aid, comentou:
“O fato de a empresa dizer que seus próprios padrões melhoraram de forma gritante mostra claramente a importância da nossa investigação”.
“Isso ressalta, em termos absolutamente claros, que o que estamos fazendo, e o que continuaremos a fazer, é uma tarefa vital. Estamos muito contentes que o CFTV tenha sido introduzido. É absolutamente vital que as sequências sejam não só coletadas, mas regularmente examinadas por Sainsbury’s e as autoridades reguladoras”, disse Mr. Tyler.
Como vocês poderiam adivinhar, muitos defensores dos animais estão, compreensivelmente, indignados com o fato de o Animal Aid estar agora formando parcerias com exploradores institucionais para promover e vender carne “feliz”.
Uma colega da Grã-Bretanha me escreveu e compartilhou uma resposta que ela havia recebido de Tyler à sua objeção a essa campanha tola. Tyler tentou justificar a campanha pelo CFTV usando o seguinte exemplo:
você está numa feira de gado e vê uma ovelha ser repetidamente chutada na cabeça e pisoteada. Você intervém para acabar com esse extremo abuso ou iria considerar isso “bem-estarista”, dado que, mesmo se você parasse com os chutes e o pisoteio, a ovelha ainda seria abatida?
Ingrid Newkirk da PETA usou o mesmo tipo de argumento há quase 20 anos, quando, no contexto de promover a reforma do bem-estar animal que, alegava ela, nos aproximaria dos direitos animais, ela disse que quem se opunha à reforma do bem-estar negaria água a uma vaca sedenta a caminho do matadouro.
Eu discuti a posição de Newkirk em meu livro de 1996, Rain Without Thunder: The Ideology of the Animal Rights Movement. Argumentei que se eu fosse um guarda de um campo de concentração, eu certamente daria água a um prisioneiro político sendo levado para a execução. Mas se eu concluísse que o campo de concentração para prisioneiros políticos era, em geral, uma instituição imoral e injusta, eu largaria meu emprego e faria campanha para fechar o campo. Eu não faria campanha para dar água aos prisioneiros prestes a ser fuzilados, nem por outras medidas destinadas a acobertar a imoralidade da instituição.
Minha resposta a Newkirk se aplica ao exemplo de Tyler. Sem dúvida, eu faria com que parassem de chutar a ovelha. Imagino que a maioria dos proprietários de ovelhas e operadores de matadouros fariam o mesmo. Afinal, chutar a ovelha causa danos à carcaça, e isso reduz o valor da ovelha. Mas eu faria campanha por um tratamento mais “humanitário” da ovelha? Não, absolutamente não. Isso não faz nada além de acobertar uma instituição inerentemente imoral e deixar o público mais à vontade quanto a comer carne.
E é exatamente isso que o Animal Aid está fazendo. Está encorajando o público a acreditar que há um modo certo e um modo errado de explorar os animais.
Não há. Há somente um modo errado.
As pessoas não deveriam abusar sexualmente de crianças. Mas se elas vão fazer isso, é melhor elas não torturarem as crianças além de abusar sexualmente delas. Mas devemos fazer campanha por um abuso sexual mais “humanitário” de crianças? Não, é claro que não. Não há nenhum modo certo de abusar sexualmente de crianças, assim como não há nenhum modo certo de torturar e matar animais.
É perturbador ver quantos consumidores de carnes e laticínios estão elogiando a campanha do Animal Aid. Mas isso é de se esperar. O Animal Aid está lhes vendendo uma indulgência e, por uma doação, dizendo-lhes que podem continuar explorando, contanto que comprem de um supermercado que obtém sua carne de um matadouro com CFTV.
É realmente apavorante, e eu peço a todos os defensores dos direitos animais abolicionistas no Reino Unido que não apoiem essa campanha equivocada (embora eu tenha certeza de que os bem-estaristas nos Estados Unidos embarcarão nessa caravana também). E por falar nisso, defensores no Reino Unido: por favor, escrevam ao grupo Viva! pedido para ele parar de vender livros de culinária não veganos, parar de promover restaurantes e pousadas não veganos, e parar de representar a ingestão de laticínios como sendo melhor, sob o aspecto moral, do que a ingestão de carnes.
Devo acrescentar que, há 20 anos, Newkirk dizia que devíamos apoiar o bem-estar para nos aproximar mais dos direitos animais. Bem, já são 20 anos depois, e se Newkirk acha que estamos mais próximos — mesmo que seja um centímetro — está se negando a admitir a realidade. E agora temos Tyler apresentando o mesmo argumento ridículo.
Se você não for vegano(a), torne-se vegano(a). É fácil, melhor para a sua saúde e o planeta e, mais importante, é a coisa moralmente certa e justa a fazer. É o que nós devemos aos outros animais. Se você for vegano(a), então eduque os outros sobre o veganismo.
Gary L. Francione
© 2010 Gary L. Francione
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Tradução: Regina Rheda

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Não há terceira escolha

Postado por Gary L. Francione em seu blog em 17 de outubro de 2010

Caros(as) colegas:
Há veganismo e há exploração animal. Não há terceira escolha. Se você não for vegano(a), está participando diretamente da exploração animal.
Se você não for vegano(a), pense se seu conforto, seu prazer, sua diversão ou sua conveniência valem a vida de alguém. Se você concluir que não, torne-se vegano(a). É fácil, melhor para a sua saúde e o ambiente e, mais importante, é a coisa moralmente certa a fazer.
Gary L. Francione
© 2010 Gary L. Francione
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Tradução: Regina Rheda

domingo, 17 de outubro de 2010

Um sonho bem-estarista tornado realidade: o livro de registros de abusos de animais

Postado por Gary L. Francione em seu blog em 15 de outubro de 2010

Caros(as) colegas:
Imaginem que vocês queiram achar uma campanha de um só tema que lhes permitirá levantar fundos infinitamente, 24 horas por dia, 7 dias por semana, para que vocês (e, mais importante, seus doadores) possam “ajudar os animais”.
Imaginem que essa campanha não exija que ninguém mude seu comportamento em relação aos animais. As pessoas podem continuar a comer carne, tomar leite e usar lã ou couro, ir ao circo e passar a tarde vendo corrida de cavalos no hipódromo, ao mesmo tempo em que podem se sentir “compassivas”.
Imaginem uma campanha cujo ponto essencial seja definir o termo “abuso de animais” de um modo tão estreito que nenhum potencial doador – por mais carne, leite, ovo, queijo, manteiga, sorvete ou seja o que for que ele consuma, e qualquer que seja a forma de exploração legalizada de que ele participe – será considerado comprometido com o “abuso de animais”.
Tudo que qualquer um tem de fazer é apoiar um gesto completamente insignificante – com uma doação, é claro.
Não procurem mais; eu tenho a campanha para vocês: a campanha pelo livro de registros de abusos de animais.
Esta semana, Suffolk County, que fica na metade oriental de Long Island, criou o primeiro livro de registros de abusos de animais da nação. A lei em questão exigirá que as pessoas condenadas por cometerem crueldade contra animais se registrem junto às autoridades, ou ficam sujeitas a prisão e multas. A lei de Suffolk tem como modelo as “Megan’s Laws”, que criam livros de registros de abusadores de crianças.
Então agora seremos capazes de identificar “abusadores de animais”, pelo menos em uma parte de Long Island.
Mas esperem.
Os supermercados em Suffolk County que vendem partes de corpos de animais e outros produtos de origem animal estarão no livro de registros? Bem, não, porque a venda de partes e produtos animais é perfeitamente legal. Não é “abuso de animais”.
E aqueles habitantes de Suffolk County que consomem produtos animais – aqueles dentre nós que criam a demanda por produtos animais, em primeiro lugar – estarão no livro de registros? Bem, não, é claro que não. Consumir animais não é uma violação da lei anticrueldade.
Então quem é o alvo dessa lei?
Bem, segundo a matéria lincada acima, havia a mulher que torturava os gatos:
A lei foi motivada por vários casos de abuso de animais nos últimos meses, incluindo aquele de uma mulher de Selden, acusada de forçar seus filhos a vê-la torturar e matar filhotes de gatos e dúzias de cachorros, e depois enterrar os animais de estimação em seu quintal.
A esta altura, deveria estar claro para vocês qual é o problema aqui. Ao definirmos “abuso de animais” como o comportamento patológico raro que desrespeita as leis anticrueldade – e que provavelmente responde por menos de um milionésimo de um por cento do uso de animais – deixamos em paz o que é considerado “normal”. Reforçamos a noção de que uso não é abuso, de que o abuso só ocorre como uma exceção à regra, em vez de ser a regra de todos os segundos de todos os dias. Além do mais, essa lei também se aplicará, na maior parte das vezes, a situações envolvendo os animais que “fetichizamos”, como cães, gatos, etc. Vocês sabem, aqueles animais que amamos e consideramos membros de nossas famílias, enquanto enfiamos garfos em todos os outros.
Em resumo, isso é um gesto insignificante que servirá apenas para reforçar a noção de que está certo explorar os animais, contanto que não “abusemos” deles. Realmente, isso declara que nosso uso “normal” de animais não é abuso.
Deveria estar claro, também, por que esse tipo de campanha é um sonho de bem-estarista tornado realidade: essa é uma campanha que simplesmente todo mundo pode apoiar e que fará as pessoas se acharem virtuosas. Apenas pessoas “más” abusam de animais, e elas estão no livro de registros criminais; o resto de nós é “gente compassiva”.
Posso lhes assegurar que essa campanha será uma mordomia sem fim para o bem-estar animal. De fato, se você quiser entrar nessa barca, é melhor se apressar; ela já está zarpando:
Os ativistas do bem-estar animal esperam que a lei, aprovada por unanimidade terça-feira no condado de 1 milhão e meio de habitantes, próximo à cidade de Nova York, inspirará governos por toda a nação, do mesmo modo que o livro de registros Megan’s Law para abusadores de crianças proliferou na década passada.
….
Mais de doze estados introduziram legislação para estabelecer livros de registros semelhantes, mas Suffolk County é a primeira entidade governamental a aprovar a lei, disse Stephan Otto, diretor de assuntos legislativos do Animal Legal Defense Fund.
A PETA já declarou seu entusiástico apoio ao livro de registros. A PETA acha que Temple Grandin, a projetista de matadouros e consultora da indústria da carne, deveria estar na lista? Grandin é uma “abusadora de animais”? Não; a PETA deu um prêmio a Grandin.
E quanto ao Whole Foods, que vende carnes e outros produtos “felizes” oriundos de animais que foram torturados? Não, porque a PETA (junto com a maioria das outras corporações grandes de bem-estar animal) apoia os produtos animais “felizes” vendidos pelo Whole Foods.
E quanto às organizações de defesa animal que têm polpudos orçamentos, mas matam animais em vez de ter um programa de adoção? Elas são “abusadoras”? Não, a PETA mata 90% dos animais que acolhe em suas instalações, então isso não pode constituir abuso, pode?
E quanto às pessoas que consomem produtos animais? A PETA as considera “abusadoras de animais”? Isso seria um pouco constrangedor, dado que metade dos membros da PETA, segundo Dan Mathews, o vice-presidente sênior da PETA, não é nem mesmo vegetariana.
Isso prova meu argumento de que a ideia do livro de registros de abusos é simplesmente uma tentativa de definir “abuso” como o incidente patológico da tortura de gatinhos e cães no quintal. Mas isso é extremamente fora do comum. O que constitui o real abuso é a exploração diária praticada por gente comum, incluindo a exploração perpetrada, facilitada e aprovada pelas empresas de bem-estar animal.
Há 50 estados e Washington, D.C., vários territórios e centenas de milhares de condados, cidades, cidadezinhas, etc. Essa é uma campanha que tem o potencial de continuar por décadas e terá uma durabilidade quase ilimitada para efeito de levantar fundos. Já posso até ver caminhadas em prol do livro de registros, guiadas por várias celebridades e permitindo que todas as mulheres, homens e crianças comprem seus bilhetes de saída da classe dos “abusadores de animais”, ao fazerem uma doação para assegurar que os verdadeiros “abusadores de animais” estejam em algum livro de registros criminais, enquanto o resto de nós continua a se sentir em paz com sua consciência. Estou certo de que já existem planos para a realização de eventos de mídia com mulheres seminuas, vestindo apenas pedaços de papel onde estarão os nomes dos delinquentes que constarem nos livros de registros. Oh, os sacrifícios que algumas pessoas farão “pelos animais”.
E quanto à mulher de Long Island que torturava os gatinhos e os cachorros? Não é uma boa ideia que tenhamos um livro de registros para identificar pessoas como aquela?
Dentro da medida em que o livro de registros pode fornecer informações a abrigos que ajudarão a identificar perigos para futuras adoções, tudo bem. Mas em um sentido fundamental, a mulher que praticou esses atos terríveis não difere de nenhuma pessoa que consome animais.
Como vocês veem, aquela pessoa torturou gatinhos e cachorros porque obteve algum prazer ou satisfação a partir daqueles atos. É errado fazer aquilo? Certamente. Mas em que, realmente, o que ela fez difere do que todas as outras pessoas fazem? A maioria de nós come produtos animais, e os animais a partir dos quais esses produtos são feitos foram tão torturados quanto os gatinhos e cachorros no caso de Long Island. Mas aquela mulher é uma criminosa, e o resto de nós, que apoia o livro de registros e truques semelhantes, é “compassivo”. Não entendo...
Alguns anos atrás (2007), eu fiz a observação de que Michael Vick, que foi preso por se envolver com rinhas de cães, não era realmente diferente do resto de nós. Ele gostava de ficar diante de uma arena vendo os cães lutarem; o resto de nós gosta de ficar diante da churrasqueira assando cadáveres de animais que foram tão torturados quanto (ou mais torturados ainda do que) os cães de Vick. A única diferença é que a maioria das pessoas paga outras para fazerem o trabalho sujo. Mas nós apreciamos consumir os produtos da exploração, exatamente como Vick apreciava o que fazia.
Tudo é esquizofrenia moral.
Se você não for vegano(a), torne-se vegano(a). É fácil, melhor para a sua saúde e o planeta e, mais importante, é a coisa certa e justa a fazer. É o que devemos aos outros animais. Se você for vegano(a), então eduque os outros sobre o veganismo.
Gary L. Francione
© 2010 Gary L. Francione
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Tradução: Regina Rheda